+REVIEW - A Forma da Água

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Um filme em forma de poesia.


O mar e seus mistérios circundam o imaginário humano desde os mais remotos tempos. Mitos fantásticos, histórias de sereias e outras criaturas místicas, o reino de Poseidon são apenas algumas das inúmeras fábulas, histórias e mitologias criadas para explicar o fato de que não sabemos absolutamente nada sobre o mar. É nesse universo fantástico que o já experiente diretor mexicano Guillermo del Toro nos convida a mergulhar em sua mais nova obra chamada “A Forma da Água".

Guillermo é expert na criação de fábulas fantásticas e criaturas místicas. O Labirinto do Fauno continua sendo de longe o meu filme favorito do diretor, porém, em A Forma da Água, Guillermo se atreve a narrar em forma de poesia de maneira nua e crua uma história romântica e erótica, ao mesmo tempo, delicada, a relação entre uma mulher é uma espécie híbrida de homem com peixe (ou anfíbio, eu não sei).

A história se passa no auge da Guerra Fria em que a personagem Elisa Esposito interpretada por Sally Hawkins é uma faxineira muda que trabalha em um laboratório científico que vê sua vida mudar ao encontrar em um dos laboratórios uma estranha criatura vivendo em tanques de água. Tal “monstro” foi capturado na América do Sul onde os povos da região o cultuavam como um Deus. Então, ele é levado até o laboratório para ser utilizado como instrumento de estudo pelo governo Americano na tentativa de descobrir uma vantagem sobre a Rússia em caso de conflito. Elisa rapidamente desenvolve um forte laço afetivo com a criatura, que aprende a se comunicar através de gestos, assim como ela. A criatura parece ser a única a entender como Elisa se sente, uma vez que ela sempre se sentiu excluída e tratada de maneira diferente por possuir uma deficiência. A criatura sofre diversas torturas enquanto os cientistas buscam entender melhor o funcionamento do seu complexo sistema respiratório Elisa resolve então agir e se envolve em uma missão perigosa para salvar e libertar essa figura tão singular.




Falando da ambientação da obra, a direção de arte foi impecável na captura e reprodução dos cenários dos laboratórios, as ruas da cidade, os apartamentos onde o filme se passa, o cinema, entre outros. Tudo construído com uma riqueza de detalhes impressionante, a escolha de cores para as cenas é fantásticas e lindíssima. A cereja do bolo na produção é a eficiente trilha sonora que traz até Carmen Miranda e diversas canções românticas que rapidamente nos levam para a década de 60 e 70. Uma cena que gostaria de comentar é a de abertura do filme que mostra o apartamento da protagonista totalmente coberto por água, um reino submerso. A riqueza de detalhes é impressionante, como o reflexo dos raios de sol na água e a forma como os movimentos flutuam debaixo d'água nos passa a ideia de que de fato a personagem vive submersa. Mais uma vez a trilha sonora e o jogo de iluminação e cores roubam a cena enquanto o narrador introduz a história de uma bela história de amor em que os mocinhos são perseguidos por um terrível monstro. Outra cena que quero chamar atenção para que vocês prestem atenção ao assistir ao filme é a forma como a produção construiu o cinema no qual Elisa mora na parte superior, reproduzindo com perfeição todo o esplendor de uma época.

A atuação de Sally é emocionante e mais do que suficiente para nos convencer a nos afeiçoar apela doce e gentil faxineira. Ela realmente se preparou para viver uma personagem muda que se comunica apenas através de gestos, e é realmente lindo ver as diversas expressões em seu rosto. O dito popular “uma imagem vale mais que mil palavras” nunca fez tanto sentido. O filme conta também com a maravilhosa Octavia Spencer que faz o papel de uma outra faxineira e de Richard Jenkins que é vizinho de Elisa e seu único amigo. Juntos trazem um tom cômico e mais humanos para as cenas, contudo, sem perder a qualidade nos diálogos, ponto forte do filme.

Ao analisar o roteiro, percebo que o filme entrega muito em seu trailer, mas fiquei um pouco decepcionado assistindo. Esperava ver mais a respeito da criatura, sua origem, localização, etc. Ao meu ver o filme ficaria mais interessante ao focar na relação dos dois ao invés do excesso de algumas cenas secundárias. A criatura em si não despertou em mim a mesma empatia causada por Elisa, talvez por justamente não ter tido esse aprofundamento da história do personagem. Também achei que o desenvolvimento da relação dele com Elisa foi muito rápido enquanto em algumas outras cenas achei o desenrolar desnecessariamente prolongado. Em um momento de devaneios da personagem, por exemplo, o filme se transforma num musical. Apesar de bonita, a cena não acrescenta muito para a obra, uma vez que parece deslocada da sequências de cenas que compõem o filme, porém, novamente a equipe artística e de trilha sonora merecem palmas pelo alto nível da produção.

A belíssima cena de abertura do filme.

O que definitivamente vale destacar no filme é a forma como a felicidade foi abordada. Elisa sempre se sentiu oprimida e uma estranha por não possuir a capacidade de falar, porém, se enxergou na criatura e viu nela a forma de ser feliz, uma vez que ali na relação deles não há diferenças. Pra mim, funciona muito como uma metáfora sutil para como a sociedade trata o que é diferente, como uma aberração que merece ser estudada e mantida separada dos demais, sem a possibilidade de encontrar a felicidade e o amor. Mas ali, juntos, não havia nada disso. Ele a aceitava como ela é e vice versa.

“Quando ele olha para mim, o modo como ele me olha. Ele não sabe o que falta em mim, ou quanto sou incompleta. Ele vê o que eu sou, como sou.”


Vão ao cinemas preparados: O filme é longo, tem um pouco mais de duas horas de duração e em alguns momentos é cansativo e maçante, porém, não se deixem enganar achando que é um filme de romance. Guillermo traz para as telonas o pior da parte humana em cenas violentas, sanguinárias e viscerais. O vilão vivido pelo ator Michael Shannon é o verdadeiro monstro movido por ambição e ego pessoal e sua atuação também é de arrepiar, porém, assim como eu seus minutos iniciais somos apresentados a uma história de amor, e o filme é todo conduzido em forma de poesia, nos levando para longe em uma narrativa que, assim como eu seu começo, termina em forma de literatura.


"Sem poder perceber a sua forma, eu vejo você à minha volta.
Sua presença me enche os olhos com seu amor,
Acalma meu coração, porque você está em todo lugar."



Pontos positivos:

  • Atuações impecáveis de todo o elenco
  • Riqueza de detalhes na reprodução de cenários
  • Trilha sonora
  • Diálogos bem construídos, trazendo um tom ainda mais literário para o filme.

Pontos negativos:

  • Pouco desenvolvimento da história entre a criatura e Elisa
  • Cenas secundárias extremamente demoradas
  • Falta de aprofundamento das origens da criatura.

Nota: 7,0

E aí, gostaram? Acharam que faltou algo? Qualquer elogio, crítica ou sugestão é bem vido. 






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