+REVIEW - Mãe!

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Um filme para quem não é de metades.

Um filme ousado para quem não é de metades.





Olá, pessoas! Me chamo Gabriel e sou o novo colaborador do site +Reviews. Pretendo trazer pra vocês textos semanais a respeito de filmes e séries, já que é algo que gosto muito de fazer. Caso queiram algum texto especial ou review específica no site, é só deixar sua sugestão, farei com o maior prazer. Sem mais delongas, vamos falar de mãe! 

Mãe! Ou você gosta ou você odeia. Nesse filme não existe meio termo. E tem dividido o público que lotam as salas de cinema.

Segundo a Bíblia, Deus levou exatos 7 dias para desenhar e criar o mundo como conhecemos. Já em Mãe!, Darren Aronofsky, mesmo diretor de Cisne Negro, levou apenas 5 dias para conceber o primeiro roteiro do controverso filme. Segundo uma entrevista dada pelo autor e roteirista, ele sentia muito ódio e dor e queria canalizar todos os sentimentos em um único elemento, eis que surge o roteiro de Mãe!

Se me permitem uma opinião, devo dizer que é o filme mais ousado dos últimos tempos. Uma grande parte do público simplesmente odiou o filme, enquanto a outra parcela o considerou genial. A grande questão é: Não é um filme fácil para ser assimilado por ser repleto de metáforas e, acredito que esse seja o principal atrativo do filme, que brinca com sua mente e suas emoções o tempo todo. Funciona como um jogo em que os telespectadores precisam desevendar aquele quebra-cabeça para passar para o nível seguinte.


[AVISO: CONTÉM SPOILERS]






Vamos dividir o filme em partes. Fui ao cinema sem saber muito a respeito do filme e agora, ao rever o trailer, percebo que ele está sendo mal vendido para o grande público. Não é um filme de terror; tampouco um suspense – com exceção de algumas cenas bem pesadas que iremos comentar mais tarde.  As pessoas vão ao cinema imaginando consumir um certo tipo de entretenimento mas não imaginam a profundidade que o filme atinge, que é construído em cima de metáforas e alegorias bíblicas em que a interpretação dos fatos fica a mercê daqueles que o assistem. 

Se você não entendeu o filme, assim com eu – e grande maioria das pessoas – provavelmente saiu da sala do cinema simplesmente detestando o filme. Porém, tive a oportunidade de repensar minha opinião a partir de pesquisas realizadas e pude perceber a tão complexa redes de referências que formaram o roteiro Mãe!.

Em uma premissa básica, as personagens vividas por Jennifer Lawrence e Javier Bardem vivem em uma casa isolada em que veem suas vidas mudarem ao receber uma visita de um suspeito homem no meio da noite. As personagens não possuem nomes; Jennifer, uma mulher submissa e devota ao marido; Javier, um escritor misterioso que enfrenta um sério bloqueio artístico que o impede de escrever. A partir daí ocorrem uma sucessão de eventos que para os mais desavisados – como o menino que vos fala – não possuíam coerência e coesão com nada. Porém, Aronofsky apostou todas suas fichas em um roteiro literal, de tirar o fôlego e de fazer você perder o sono, literalmente.

O que posso dizer é que é um filme que possui uma temática religiosa, porém sem ser especificamente sobre religião. O filme é divido em atos que representam uma versão moderna dos contos da Bíblia, de Gênesis ao Apocalipse. O filme representa a vida em seu ciclo de nascimento e destruição.



DEUS E A TERRA.



Após o final do filme, finalmente o motivo pelos quais as personagens não possuem nomes é revelado. Javier, é Deus. Jennifer é a Terra. Deus, segundo Aronofsky é representado como um artista obcecado por sua obra, extremamente egocêntrico e que não se importa nem um pouco com sua esposa, apenas por sua criação, seu amor maior. Quando as coisas fugem do esperado, Ele não hesita em destruir a Terra para o recomeço de um novo ciclo, de uma nova vida.

Diversos temas são explorados nos filmes e, como dito anteriormente, são utilizados elementos bíblicos para a abordagem de assuntos como a destruição do meio ambiente. Por diversos momentos, vemos a casa ser invadida por pessoas que roubam e destroem as coisas, uma referência clara do que fazemos hoje em dia em que reivindicamos uma terra que não nos pertence. No filme também é representado a fúria da Mãe natureza com todas as catástrofes naturais até culminar na bíblica representação do dilúvio e da extinção dos seres humanos do planeta Terra.


ADÃO, EVA, CAIM E ABEL.

Os elementos religiosos não terminam por aí. O estranho homem que aparece repentinamente na casa tarde da noite nada mais é que Adão. Em uma determinada cena, percebemos um ferimento próximo de sua costela e, na cena seguinte, sua esposa, Eva, entra em cena, curiosa e pedante que, apesar de todos os avisos da Mãe para que ela não entrasse no escritório do Poeta sem a sua permissão, ela o faz e quebra a valiosa pedra que Javier tem tanto apresso e cuidado, uma representação do fruto proibido. Deus, em toda sua fúria, expulsa os dois de seu escritório, seu santuário particular, o Paraíso. Na cena seguinte, vemos o filho do casal surgindo na casa e Aronofsky recria a sua versão para o mito de Caim e Abel. No filme, os irmãos brigam por causa do testamento do pai. Após a briga, Caim mata Abel. Segundo o livro sagrado, esse foi o primeiro homicídio da história.


O FRUTO SAGRADO

Uma das metáforas mais complexas do filme é a relação da Mãe com Deus. Em dado momento, Jennifer engravida de Javier. Sua personagem, por sua vez, passa a possuir um outro significado e além de representar a Terra, Jennifer passa a ser uma representação para Maria, mãe de Jesus. Em uma sequência de tirar o fôlego e de deixar todos os telespectadores catatônicos, assim como na Bílbia, Jesus é entregue para a humanidade, que o veneram, o crucifixam e, em seguida, consomem sua carne e bebem seu sangue, metáfora para a comunhão. O filme continua se desenvolvendo para que, no ato final, o apocalipse seja representado com a completa destruição da casa pela mãe para que um novo ciclo se reinicie.



Em minhas pesquisas pela internet, li que o assassinato do filho do casal pela humanidade é um ponto crucial da história para a figura de Deus, antes representado como punitivo, muito semelhante com o descrito no Primeiro Testamento, para um Deus misericordioso e amoroso, capaz de perdoar sua criação [os humanos] até nos mais hediondos erros. Deus chega a dizer para sua esposa que a morte do bebê representa o ponto chave para uma grande mudança no comportamento da sociedade e, por isso, merecem ser perdoados.



OUTROS CONTEXTOS

Apesar de estar recheados de temas de religiosos, Mãe! apresenta uma sucessão de temas bem atuais em discussão hoje em dia, como a destruição da natureza e nossa relação com o meio ambiente, a opressão feminina, a busca exacerbada pela a fama e as consequências de tal, relacionamentos abusivos, conflitos políticos, entre outros. A cada novo texto que leio encontro novas interpretações a respeito dos acontecimentos do filme, de forma que Mãe! não possua apenas uma única versão dos fatos.



CONCLUSÃO:

Mãe! é um filme tenso e visceral. Seu roteiro foi construído com tamanha complexidade que vamos mergulhando cada vez mais fundo em suas camadas de entendimento e, mesmo assim, ainda deixa aquele ponto de interrogação em sua cabeça. Apesar de um roteiro que se assemelha uma obra de arte, o filme peca pela forma como os acontecimentos são abordados, dando um ritmo arrastado no filme, torando seu entendendimento ainda mais difícil. Recomendo que o assista em casa, faça pausas e vá refletindo a respeito do filme, é uma experiência obrigatória para todos os fãs de cinema.

Mãe! não é apenas um filme. É uma representação artística que marca nossa mente e coração. A partir do momento que você compreende os elementos essenciais sob os quais o filme é construído, é incapaz de se desligar e de não repensar em tudo que acontece hoje em dia.


Pontos Positivos:


  • Roteiro impecável e inteligente;
  • Todos os atores são excelentes;
  • Direção e fotografia do filme muito bonitos;


Pontos Negativos:


  • Em alguns momentos do filme, a narrativa se torna arrastada o que dificulta o seu entedimento;
  • Devido a alta complexidade do roteiro, as cenas parecem desconexas para aqueles que não o compreendem em um primeiro plano.


Apesar dos pontos negativos, não vejo como dar uma nota abaixo de 10 para o filme, que para mim, se torna o melhor lançamento do ano.

Nota: 10/10



E aí, gostaram? Acharam ruim? Sentiram que faltou algo? Qualquer elogio, crítica e sugestão é sempre bem vinda!


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